quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Jean-Bedel Bokassa

Nome de Imperador;
Nome de Imperador Africano;
Nome de Imperador Africano que gastou 1/3 do Orçamento de Estado na sua Coroação;
Nome de Imperador Africano que gastou 1/3 do Orçamento de Estado na sua Coroação e sob o qual pendiam suspeitas de canibalismo;
Nome de Imperador Africano que gastou 1/3 do Orçamento de Estado na sua Coroação, sob o qual pendiam suspeitas de canibalismo e que ordenou a morte de 100 crianças porque estas se recusavam a comprar o uniforme escolar obrigatório;

Esse mesmo.
Esse belo senhor foi hoje reabilitado como construtor do Congo e defensor da humanidade.

comentários:

  1. Consideras que o que este indivíduo fez foi objectivamente mau?

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  2. Hahaha, confessa que sonhaste com este momento. No entanto, tenho de te dizer que o contexto histórico e espacial continuam a ser relevantes, não obstante a repugnância que tais acções convocam.

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  3. Ou seja, não podes afirmar que estas acções foram objectivamente más, independentemente do que qualquer pessoa pense sobre elas?

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  4. Posso afirmar-te que estas acções são más para qualquer Português do século XXI.

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  5. Não necessariamente. Não sabes isso. No entanto, não é o que está em causa.
    Admites, portanto, que não há nenhum fundamento objectivo sólido para argumentar que estas acções são más. Elas não são intrinsecamente más, mas apenas más para ti, correcto?

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  6. Más para toda a gente que vive a época que eu vivo, no país onde vivo. Para mim (e para qualquer Português, penso eu) é errado o canibalismo, no entanto ele é praticado ritualmente em África, onde a conotação é totalmente diversa. O acto de comer alguém não existe per se, existe contextualizado. Não tentes estancar fenómenos sociais. Se a matéria, donde tudo provém, está em permanente mudança, porque é que a ideia, dela produto necessário, não estará?

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  7. E lá retornamos ao debate da ideia que cria matéria ou da matéria que cria ideia...

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  8. Lembremos o sentido de objectivo: aquilo que é, independentemente da interpretação subjectiva.
    Ou seja: a moralidade é uma construção cultural, subjectiva.
    Objectivamente, comer carne humana não é mau, certo? Objectivamente, comer carne humana não difere de praticar um acto de altruísmo, certo?

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  9. Comer carne humana não é mau por si; depende do contexto. Na actualidade é errado. Para os sobreviventes do voo que se despenhou nos Andes, era o necessário para sobreviverem. Para as tribos da Melanésia é uma forma de honrarem os mortos.
    O acto deglutidor de carne humana não existe sem a sua interpretação. Tal como o altruísmo, por muito que te choque.

    E que a moralidade é uma construção cultural resulta evidente da história. Olhe-se para uma dita civilização judaico-cristã com todos os seus dogmas, por exemplo, de repressão sexual, e depois atente-se aos templos do sexo no Cambodja.

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  10. Tens contradições discursivas. Se comer carne humana não é mau em si, não é mau em nenhum contexto, no plano objectivo. Não tentemos disfarçar as coisas: é mau para ti, para o imperador não é mau. Ou seja, é indiferente. É o que resulta da tua cosmovisão materialista. Não há moral objectiva, como reconheces. Nada é mau, nada é bom.

    Ainda bem que chegámos a essa conclusão. Sendo assim, pergunto: como podes afirmar que o que o imperador fez é errado se não há valores morais objectivos? Mau, em relação a quê? E o que é agir bem? Não tens autoridade para condenar o imperador. Ele não fez nada de mal. A tua condenação é vã.

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  11. Aquilo que afirmei foi que a moralidade resulta como produto de um processo histórico-cultural. Daí não podes tu retirar que não existe de facto nada que seja certo ou errado. Existe. Simplesmente o juízo do certo e do errado circunscrevem-se num tempo e num espaço.

    Hoje, em Portugal como no Congo, são erradas as acções do senhor Bokassa.

    E voltando à tua visão estanque de que o canibalismo é algo de objectivamente errado independentemente do topos e do chronos, como podes obviar à tentativa de sobrevivência, por parte dos tripulantes do voo 557? Porque, pegando no conceito de princípio basilar, perpétuo e imutável, seria sempre errado comer carne humana.

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  12. Dantas, e isto voltando às origens do debate (matéria vs ideia) que escamoteamos pontualmente com pitadas de realidade, mas que agora retorno à abstracção porque ainda não foste, cabalmente, capaz de me responder.

    Como é possível conceber uma ideia sem nada sobre a qual versar?

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  13. Contradição atrás de contradição. "...não podes tu retirar que não existe de facto nada que seja certo ou errado. Existe."
    Ora bem, se existe algo que seja objectivamente certo e objectivamente errado, independentemente das culturas e dos homens, então há valores morais objectivos e estes têm um fundamento necessariamente transcendente. É contraditório com a tua crença materialista.

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  14. Mas eu não disse isso. Dantas, vamos ver se fica claro: existe apenas uma acção certa e uma acção errada, num dado contexto. Ela é objectiva porque só é uma, independentemente do que o que as partes podem alegar.

    Assim, num jogo de futebol em Portugal no ano de 2006, mesmo que um jogador diga que para ele não é errado dar um murro noutro, o critério do certo ou errado é dele independente, está ínsito no contexto de que as pessoas que nele intervêm são produto.

    Mas reparei que intentaste aqui uma fuga, não para o direito privado, mas às minhas questões...Procuro responder às tuas, peço que faças o mesmo.

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  15. 1. Hás-de dizer-me em que é que fugi às tuas questões.

    2. No caso do imperador, considerando a tua teoria, e visto que estás fora do contexto em que ocorreram os actos de canibalismo, que estatuto tens para que possas classificar como "má" essa acção?

    3. Não confundas direito com moral. À luz dos regulamentos, um futebolista que esmurre outro em campo está a proceder mal. Mas isso não nos diz nada sobre a moralidade do acto.

    4. Continuas contraditório e ambíguo. a) se a moral é uma construção cultural, quer dizer que seja auto-evidente para cada um dos integrantes dessa cultura?, b)a moral não é objectiva porque, se a fundamos na razão humana subjectiva, nunca pode ser apenas uma; se assim fosse, não haveria divergências entre culturas e, dentro dos mesmos contextos, como lhes chamas, não se divergiria sobre questões morais fundamentais: o aborto, a eutanásia, etc.

    5. Quando reclamas a possibilidade de julgar segundo os teus critérios outras práticas culturais, reclamas a tua moral como superior por referência a padrões objectivos; quando reclamas que num dado contexto cultural há valores objectivos, estás a reconhecer valores morais objectivos in totum, porque a moral carece de aceitação interior, e nada tem que ver com a massificação de condutas originada pela imposição do direito.

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  16. 1. Fugiste à questão dos tripulantes do voo 557 e à questão da possibilidade de conceber uma ideia sobre nada o que versar.

    2. Questiono a tua segunda premissa que leva à conclusão que pretendes. Eu não estou fora do contexto em que ocorreram os actos de canibalismo.

    3. O Direito é a justiça do caso concreto. Só posso confundi-lo com a moralidade pois é a sua concretização a um sujeito e a um objecto.

    4 e 5. Correcto! A moral é auto-evidente para os seres integrantes e produtores de um dada cultura. Ela parte de seres unos, mas adquire uma essência que os transcende, da mesma forma que as ideias não são dos seus donos. O colectivo é superior à soma das suas individualidades e daí resulta que a aferição da moralidade não depende, inteiramente, do julgamento individual, embora dele derive. A questão fundamental é que não existe a minha moral, existe "a" moral. A ideia de moralidade vigente no nosso planeta terra no ano de 2010 à 1h00 da manhã do dia 2 de Dezembro. E é esse conceito resultante da interacção de vectores individuais mas que os transcende, que, ab initio, te recusas a interiorizar, e daí todo o nosso desentendimento.

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  17. Godinho vs. Dantas: o debate do século XXI.

    Que tenho eu a dizer de tudo isto: BAH!

    Diz o Dantas: é um desligado de tudo; um sem rumo; um desapegado à vida e ao que te rodeia. E eu respondo: BAH!

    Claro, nisto, diz o Godinho, naquele tom que lhe é característico: Mas o que é isto? Mais uma vez, eu: BAH!

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  18. E o Godinho, que nada percebeu do que o Coimbra disse, replica com um "tenho para mim que a verdade é outra".

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  19. Para além de BAH, cabe acrescentar:

    Giro giro era que em vez de " eu tenho para mim que..." se começasse a escrever: eu tenho para ti que; eu tenho para ele que; eu tenho para nós que...

    Sempre seria mais altruísta.

    Isto leva-me a uma consideração mais séria: BAH BAH!

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  20. Para inspiração colectiva: http://www.youtube.com/watch?v=gBEHFFnV3RY

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